Apetece-me gritar.
Preciso de deitar tudo isto cá para fora. O que me impede? Não sei. Talvez a noção de que não há nada cá dentro para além do vazio que teima em consumir-me a cada dia.
O que mais me apeteceu fazer nos últimos tempos foi fugir. Fugir de tudo e de todos. Ir para qualquer outro lugar no mundo diferente daqueles em que tenho vivido. Nem o facto de dividir o meu tempo entre duas cidades diferentes e tão distantes tem servido para preencher qualquer que seja o vazio que sinto. A única coisa que me tem dado algum prazer é a condução. Aqueles breves segundos em que pego no carro e não sei ainda muito bem para onde vou, mas depois da rota traçada até isso deixa de ter piada. O que eu queria mesmo era poder conduzir sem destino, sem horas para voltar pra casa ou sem ninguém do meu lado que fale pra mim ou que controle o volume da música que estou a ouvir. Os únicos momentos em que tudo isto parece possível é o tempo que passo na A25 quando tenho a possibilidade de fazer a viagem sozinha.
Mas agora e ao contrário do que tenho dito e escrito nos últimos tempos, não quero fugir. A Grécia até podia ser um bom local para viver e quem sabe se os gregos não seriam a melhor companhia neste momento mas essa opção está posta de lado pelas mais óbvias razões. Agora só queria que aparecesse algo na minha vida que me voltasse a motivar, algo que me fizesse querer voltar a lutar, algo que me fizesse sorrir de cada vez que ganhasse uma pequena batalha desta grande guerra a que chamamos vida. Mas parece que isso não quer aparecer e o tempo começa a escassear. São cada vez mais as vezes em que me interrogo o que faço aqui, porque razão ainda não fechei de vez os olhos já que nada mais parece fazer sentido.
Noutras alturas não muito distantes já me tinha deparado com sentimentos e questões idênticas e a solução que aparecia era quase sempre a mesma: o suicídio. Porque é que realmente nunca cheguei a fazê-lo? Pura e simplesmente por falta de coragem. Nunca pensei em não o fazer porque as pessoas sentiriam a minha falta ou porque ainda tinha muita coisa para fazer antes de acabar com a minha vida. Sempre achei que toda a gente viveria muito melhor sem mim e que ninguém sentiria de facto a minha falta.
Hoje, no entanto já não penso em suicídio. A falta de coragem também voltaria a impedir-me de o fazer mas a verdadeira razão não é essa. Um dia, alguém muito importante pra mim fez-me prometer que nunca pensaria nisso como uma hipótese válida ou como uma solução para quaisquer que fossem os problemas. Por respeito a essa mesma pessoa cada vez que essa ideia me passa pela cabeça é imediatamente posta de parte por mais tentadora que seja.
No entanto o tempo continua a passar e tal como uma bomba relógio é preciso agir depressa antes que ela expluda. Só espero conseguir escolher e cortar o fio certo a tempo…
No entanto o tempo continua a passar e tal como uma bomba relógio é preciso agir depressa antes que ela expluda. Só espero conseguir escolher e cortar o fio certo a tempo…





