quinta-feira, 23 de maio de 2013

As malas enchem-se, as prateleiras esvaziam-se, o coração aperta. Encontram-se pedaços de papéis, com pedaços de conversas que são pedaços de memórias. E nada é como era. O fim é triste, fim que ainda não acabou mas que para lá caminha a passos de gigante. E como formigas que somos não podemos pará-lo. Queria poder gritar-lhe, obrigá-lo a parar só mais um bocadinho, afinal não precisava de andar tão depressa, podia ter-me dado o prazer de mais uns momentos de tranquilidade, nem que fosse uma tranquilidade fingida, nem que fosse uma tranquilidade momentânea. Mas não, há medida que cada livro é retirado da estante é uma memória que se perde, um momento que fica ainda mais distante no tempo. E apesar de a maioria das memórias não se perder porque não residem só em mim, sei que apenas posso contar com as que levo. E são tão poucas, algumas tão dispersas e difusas como se não tivesse lá estado, como se fosse apenas um sonho em que se observa como um mero espectador de um filme no cinema em que por mais que grites aos actores para se desviarem porque vão ser atacados eles não de mexem e continuam na sua feliz ignorância. Algumas memórias são como fantasmas, em que lhes sentes a presença mas não tens a certeza que de facto lá estão. E assim se passam as horas entre coisas físicas ou frutos da imaginação, assim se passam as horas, assim se passam os dias, assim se passam as semanas, assim se passam os meses, assim se passam anos. Assim passaram os anos.