Fez ontem 18 anos que o meu Pai morreu. Um cancro do pulmão causado por produtos químicos usados na fábrica onde trabalhava tirou do mundo um homem de 37 anos, casado há 5 meses e com uma filha de 15.
Eu sei o que a maioria das pessoas pensa “Coitada perdeu o pai tão pequenina, mas se calhar é melhor assim porque não sofreu tanto com a perda.”. A essas pessoas só digo: experimentem viver com um vazio dentro de vocês, experimentem viver sem conhecer uma parte de vocês próprias. Quando conhecerem o sentimento depois digam alguma coisa… talvez eu consiga perceber que só eu é que não vivo bem com isso e aí eu peço desculpa àqueles que hoje chamo ignorantes por opinarem sobre algo que não fazem a menor das ideias do que é…
Durante toda a minha vida ouvi dizer que sou igual a ele, mas no entanto nunca o conheci. De que me vale ser igual a um homem que não faz parte da minha vida? E apesar do orgulho que sinto em ouvir isto ou mesmo em dizê-lo eu nunca o poderei de facto comprovar. Nunca pude olhá-lo nos olhos e ver o reflexo de mim mesma e ao olhar-me ao espelho não reconheço nos meus olhos os dele que toda a gente diz serem iguais. A mesma cor que muda constantemente com a intensidade da luz, a mesma forma, a mesma intensidade no olhar. Tudo isso é muito bonito e talvez goste deles por serem iguais aos dele, mas no entanto estes olhos nunca poderão ver os dele, os olhares nunca se poderão cruzar, nunca vou poder fazer com ele tudo o que é normal os filhos fazerem com os pais. Nunca vou poder, sequer dizer que me lembro disto ou daquilo que vivi com ele, porque eu era demasiado pequena pra guardar qualquer tipo de recordação de quando ele ainda estava comigo. Ao contrário de todas aquelas pessoas que perdem os pais já com alguns anos de vida, eu não tenho recordações nenhumas dele, eu não sei nada sobre ele que não me tenha sido transmitido por terceiros. Eu nunca pude comprovar que temos um feitio parecido porque eu nunca convivi com ele, porque eu nunca vou poder fazê-lo.
Eu nunca pude entregar-lhe todos os presentes que fazíamos na escola pró Dia do Pai, eu nunca pude abraçá-lo, eu nunca pude nem nunca vou poder fazer uma data de coisas…
Mas apesar de tudo não posso queixar-me. Não tenho um pai mas tenho uma mãe que vale pelos dois. Uma das melhores pessoas que conheço, sem dúvida nenhuma a mulher com mais garra e coragem que conheci em toda a minha vida. Uma mulher que perde o marido e o pai apenas com umas horas de diferença, que enfrenta a família do marido pra ficar com a filha e que a cria sozinha e no meio disto tudo ainda toma conta da mãe que acabou de perder o marido. Eu seria a pessoa mais estúpida do universo e arredores se não tivesse muito, mas muito orgulho na mãe que tenho. E apesar de a minha avó passar a vida a dizer que nós somos como irmãs, porque não nos respeitamos e passamos a vida a discutir a minha mãe é das pessoas que mais amo na vida. E sim, é verdade que passamos a vida a discutir e que a mando muitas vezes “pastar a vaca”, mas a ela tenho de agradecer eternamente tudo o que fez e continua a fazer por mim.
Não digo que é a melhor mãe do mundo porque isso toda a gente diz, muito menos digo que é perfeita, não só porque não gosto do conceito mas também porque não é verdade, mas não é por isso que gosto menos dela. Eu amo muito a minha mãe e é das pessoas de quem mais orgulho tenho. A ela tenho de agradecer quase tudo o que tenho, quase tudo o que sou…
Obrigada Mamy <3