Gosto do movimento da cidade! Da forma como os apressados
conduzem de maneira agressiva e apitam aos que com toda a calma do mundo deambulam
ao volante por entre rotundas e cruzamentos. E aposto que muitos são aqueles
que não tendo um sitio realmente para onde ir, aqueles que, tal como eu, gostam
simplesmente de andar pela cidade ao volante, rezam para que o trânsito
esteja um caos para poder ouvir aquela música que passa no rádio antes de
chegar a casa.
E depois há os que andam a pé. Ou porque são mais amigos do
ambiente ou porque o preço dos combustíveis está pela hora da morte. E a passos
lentos ou apressados, de fones nos ouvidos ou a ouvir o barulho da cidade que
se faz sentir nesta hora no centro da Veneza portuguesa, encaminham-se para
casa, ou para qualquer ouro lugar.
Eu, que sou uma pessoa estranha, gosto de ficar a observar
as pessoas nas suas rotinas, a imaginar o que lhes passará pela cabeça neste
momento em que a chuva ameaça cair a qualquer instante e mesmo assim não está
frio. Alguns serão aqueles que não têm na cabeça mais do que a música que
ouvem, outros serão que pensam no trabalho, nos filhos, no marido/mulher, no
namorado/a, em dinheiro, na crise, em sexo.
Não interessa o que lhes passa na cabeça, interessa observar
a forma como andam. E enquanto uns andam de cabeça erguida como se desfilassem
numa passerelle outros são que caminham cabisbaixos ou porque a vida não é o
sonho perfeito que deveria ser ou porque esta chuva miúda não permite andar de
cabeça levantada e com os olhos bem abertos. A verdade é que poucos são aqueles
que cantam, ou sussurram a música que o telemóvel ou iPod tocam, poucos são aqueles que vão no meio da rua a falar sozinhos ou que estão constantemente a
rir das maiores parvoíces quando vão no meio da rua. Sim, eu faço tudo isto
porque, e eu sei disso, não jogo com o baralho todo. E que importa isso? Por
não jogar com o baralho todo que os outros criaram posso criar e jogar com as
minhas próprias cartas. Cartas sérias ou nem tanto, coloridas ou cinzentas
tanto faz. São as minhas cartas, cartas que não trocava, cartas que completam
a parte normal do baralho comum. Se sou mais feliz assim? Não sei. Talvez sim
ou talvez não, não tenho a certeza. Mas e quem tem? Quem é que possui as cartas
perfeitas, as regras do jogo que não permite batotas, que não permite que quem
as possui perca uma ou outra vez ao longo do tempo. Eu tenho perdido, tenho
ganho, e jogo com as cartas que criei e tal como no Yu-gi-oh confio no coração
das minhas cartas.
E por não ter um Blue Eyes White Dragon e outras tantas
criaturas mágicas que protegem os meus pontos de vida sou atacada diretamente
onde mais dói, mas mesmo que os pontos de vida cheguem a zero aprendo que
aquelas cartas não podem ser jogadas em conjunto e que aquela não é a melhor estratégia
de jogo. E assim reúno as minhas melhores cartas e desafio outro jogador para
mais um jogo de tudo ou nada, em que tenho sempre cinquenta por cento de
probabilidades de ganhar.
E ao longo do caminho, com mais ou menos batalhas, mais ou menos vitórias luto para
escolher sempre as melhores estratégias e no final ter na mão as cinco cardas
que constituem o Exódia.