Saudades. Tenho saudades de tantas coisas, de tantas pessoas, de tantos momentos, de tantos lugares que podia passar o resto da minha vida a escrever sobre isso.
Mas, acima de tudo, do que tenho mais saudades é de ser estupidamente feliz... Só porque sim. De achar que não me falta nada, de a felicidade ser tanta que chega a ser dor. E dor mesmo! Aquela dor física altamente bem suportada porque nada é mais importante que aquela felicidade. Estes momentos de plenitude já foram facilmente alcançados sem ser preciso um motivo. Ter vontade de sorrir sem razão nenhuma, ter sede de viver, ter vontade de dançar, de cantar, de rir e de chorar ao mesmo tempo. Ter tanta coisa a passar-se cá dentro que nem sequer era possível explicar, mas acima de tudo, ter a certeza absoluta de que era totalmente feliz.
Hoje sei que sou feliz, mas com uma felicidade diferente, uma felicidade incompleta porque falta sempre algo, alguém...
Perdi muitas coisas nos últimos tempos, afastei muitas pessoas das quais gostava muito, outras afastaram-se por elas próprias, por vontade do destino ou pelo passar do tempo. Hoje vivo com saudades de algumas delas. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que sinto falta de todas as pessoas com as quais tenho vindo a perder contacto nos últimos tempos... a verdade é que há algumas das quais me lembro muito esporadicamente... mas há sempre aquelas das quais me lembro todos os dias. E não, não é por ter a cara de algumas como imagem de fundo do pc, ou sequer por falarmos todos os dias. Há pessoas com as quais talvez nem chegue a falar uma vez por mês e mesmo assim lembro-me delas todos os dias, porque são importantes pra mim, porque sempre o foram, porque são elas as pessoas a quem orgulhosamente chamo "amigos". Pessoas essas pelas quais poria as minhas mãos no fogo, pelas quais daria a minha vida sem sequer pensar uma vez quanto mais duas...
Hoje, sentada na rua ao final da tarde, dei-me conta das saudades que tinha de fazer aquilo. Ficar apenas sentada a olhar o mundo em redor como se não fizesse parte dele, apenas como se fosse uma daquelas bolinhas que viramos ao contrário para depois ver a neve a cair. E ali fiquei a ver os passarinhos a voar junto ao chão e depois a subir a pique rumo aos céus como se brincassem, fazendo parecer tudo aquilo tão fácil. Ao mesmo tempo apercebi-me de que hoje não tenho uma boa vista sobre a serra devido às nuvens e de que vivo num lugar bonito... E tudo isto me deu saudades dos tempos em que brincava naquele mesmo sítio com uma inocência verdadeira e sem fazer a mínima noção de que o mundo era tão vasto e que uns anos depois este lugar chegaria ao ponto de se tornar pequeno demais pra mim.
De repente, no meio de tantos devaneios corri para casa, entrei no meu quarto de rompante e abri a janela... dali sim, tem-se uma vista a sério e aí senti saudades dos tempos em que passava horas sentada naquele parapeito e quanto mais a minha mãe gritava comigo para sair dali mais vontade eu tinha de ali continuar. Dali eu vi o sol nascer, ali curei muitas feridas, ali tomei algumas decisões em alturas em que o espaço do meu quarto era demasiado pequeno e eu sentia claustrofobia dentro dele...
Agora, já nem sei muito bem de que é que tenho saudades. Será apenas das pessoas? Dos lugares? Dos momentos? Ou terei saudades de um "eu" que já não existe? Talvez. Talvez seja isso, talvez não seja... a verdade é que há uma parte de mim que se foi perdendo e que às vezes ainda me faz falta. Um "eu" menos pensativo, muito mais instintivo, muito mais impulsivo (se bem que arrependo-me de algumas coisas que fiz nessa altura), um "eu" diferente.
As pessoas mudam com o tempo e eu também mudei. Algumas coisas porque teve mesmo de ser, outras foram acontecendo, mas nem todas essas mudanças foram 100% positivas... houve algumas que tive mesmo de fazer porque não havia maneira de continuar da mesma forma, mas que depois me fizeram perder algumas coisas que eu nunca quis perder. Mas e depois? Se não tivessem sido feitas as consequências podiam ter sido bem piores.. Fica a dúvida que persistirá sempre, porque nem tudo tem uma resposta, nem a todas as nossas perguntas nos é dada uma resposta... às vezes são apenas lançadas suposições. Um dia, gostava de perder todas as dúvidas, viver apenas de certezas, sem "se's"...
Quanto às saudades sei que elas nunca vão desaparecer e ainda bem. É sinal de que continuo a recordar tudo o que vivi e me fez feliz, é sinal de que ainda continuo a gostar das pessoas que me rodeiam (que espero que ainda sejam as que me rodeiam hoje), é sinal de que estou viva e que sinto.
Enquanto que por agora ficam as saudades dos AMIGOS (há pessoas com uns conceitos um bocado estranhos desta palavra), dos momentos e de tudo o resto, um dia sentirei saudades de qualquer outra coisa, porque fazem parte de mim, porque sou portuguesa e os portugueses adoram esta palavra, porque ter saudades é bom... Talvez um dia chegue mesmo a ter saudades do tempo em que ainda tinha tempo de escrever parvoíces aqui. Talvez um dia...